Manguetown – Projeto Final

7 dez

Esta noite sairei, vou beber com meus amigos… ha!
E com as asas que os urubus me deram ao dia
Eu voarei por toda a periferia
Vou sonhando com a mulher
Que talvez eu possa encontrar
E ela também vai andar na lama do meu quintal
Manguetown!

– Chico Science.

Introdução:

Nesta etapa final de desenvolvimento do projeto para uma habitação social em Florianópolis o grupo buscou aprofundar as diretrizes conceituais, estudar com maior precisão as estratégias de conforto e sustentabilidade adotadas e demonstrar da forma mais clara possível as ideias de projeto através de detalhamentos gráficos de materiais, estrutura, sistemas adotados e outros aspectos importantes.

As diretrizes de projeto mantiveram-se as mesmas desde sua concepção original, cabendo ao gurpo aprofundá-las e criar maneiras de interligá-las no projeto. Buscando a melhor insolação e ventilação das unidades familiares, os blocos foram locados de forma não perpendicular à rua, abrindo espaço para uma implantação que quebra com as linhas ortogonais do bairro, atendendo à outra diretriz inicial de projeto. A permeabilidade visual e de acessos às residências e ao parque foi trabalhada através da arquitetura desconstruída dos blocos – criando passagens no bloco térreo – e através dos materiais utilizados, principalmente o vidro na fachada sul. Por entre os blocos foram criadas áreas de estar sombreadas que incentivem a convivência entre vizinhos.

A seguir serão demonstradas através de imagens, esquemas e desenhos técnicos as estratégias utilizadas para atingir cada um dos objetivos de projeto e como estes se encaixam nas diretrizes conceituais.

Referências:

                Para iniciarmos o projeto, buscamos algumas referências em outras habitações sociais que fogem dos padrões utilizados no Brasil. Buscamos projetos que se aproximassem de nossas diretrizes e que trouxessem algo novo ao que já conhecemos em termos de soluções arquitetônicas, formas e materiais.

O projeto que mais nos serviu de referência foi o Complexo Lucien Rose, em Rennes, França. Este projeto traz um novo conceito de habitação social e alia as habitações com outros usos.


                Outro projeto que serviu de referência como um exemplo de habitação social foi o Conjunto Monterey, projeto da Elemental Architecture, que trabalha com uma implantação de forma a criar espaços comuns, evitando o isolamento dos moradores em seus apartamentos.

Conjunto Habitacional Monterey

Implantação:

Implantação no terreno

A implantação do conjunto tem início no mercado Martins, um ponto de referência para o local, situado na esquina da servidão com a Avenida Diomício Freitas, principal via do bairro. Devido importância do mercado como ponto de encontro e referência, optou-se por agregar ao mercado um café aberto na parte dos fundos, fazendo com que esta edificação dê início ao traçado da servidão. Na sequência da implantação do mercado optou-se pela locação de cinco blocos – que serão melhor descritos na sequência – com duas salas comerciais no térreo e um apartamento no pavimento superior. O mercado, com o café adicionado ao fundo,  compõe uma área de estar e lazer com o primeiro bloco comercial, já que a idéia é que este primeiro bloco também tenha uso de alimentação.

Início da implantação dos blocos comerciais

A partir dessa composição, que se deu por uma conexão em caráter de praça de alimentação, avançou-se para dentro da área. Entre o segundo e terceiro bloco desta primeira parte da servidão se apresenta uma área com garrafão de basquete, e área infantil para brincadeiras, assim como de estar para os usuários. Entre todos os blocos existe uma pequena área de estar, incentivando os moradores e visitantes a circular por entre as salas comerciais. No entorno destes estares, há a presença de um eixo verde, que permeia até o fim da servidão, conectando-se com o parque que permeia o mangue.

Avançando na servidão em direção ao mangue, após a área comercial, há uma área de estar interrompida por uma via, que foi aberta como uma alternativa de acesso para melhorar a permeabilidade dos automóveis e dos moradores da servidão. Após a abertura da via, a área de estar continua, servindo como área de transição do caráter comercial para o caráter residencial. Constituindo a área das residências foram especificados dois tipos de bloco residencial, com diferentes composições das unidades, porém com o mesmo partido, de uma arquitetura permeável e desconstruída. Em todos os blocos, desde os comerciais até o residenciais, implantou-se uma área livre no térreo, entre duas partes do bloco, permitindo uma passagem principal e significativa, proporcionando maior integração entre os usuários. Outra maneira utilizada para a implementação desta arquitetura permeável foi o uso dos materiais, sendo o vidro o de maior destaque, devido à possibilidade da permeabilidade visual.

A orientação dos blocos foi feita para que as áreas nobres tivessem algumas horas de insolação direta em todos os dias do ano, uma vez que a área é bastante úmida e necessita da luz solar para amenizar o surgimento de mofo e fungos. Para garantir que os blocos não interferissem na insolação do bloco vizinho, foi feito um espaçamento de 15 metros entre os blocos habitacionais e de 10m entre os blocos comerciais. Intercalando com as habitações estão os estacionamentos do conjunto. A opção de garagem no subsolo foi descartada uma vez que o terreno é bastante frágil e seria necessário um grande gasto com fundações profundas, gasto desnecessário para uma habitação de interesse social. Para incentivar ainda mais o convívio entre vizinhos, nestas áreas de 15 metros entre os blocos, foram destinadas áreas para hortas comunitárias – com composteiras – e para parquinhos infantis.

Edificações:

                A principal diretriz para a construção das edificações foi a criação de uma arquitetura desconstruída e permeável. Para realizar esta desconstrução, buscou-se a variação de alturas e de fachadas, evitando assim a construção de blocos habitacionais tradicionais. Inspirando-se na elevação sobre pilotis da arquitetura moderna idealizada por Le Corbusier, a permeabilidade entre os blocos foi criada no térreo, criando um eixo visual e de passagem.

                Os blocos comerciais, mais próximos ao mercado, possuem um módulo residencial no segundo pavimento, direcionado para habitação de um comerciante que tenha interesse de residir sobre seu comércio. Este caráter residencial também influencia no cuidado da área, por tornar o ambiente mais seguro através dos “olhos de Jane Jacobs”, os olhos da rua.

Os blocos do restante da servidão são exclusivamente residenciais e se dividem em duas tipologias: de 5 e 6 apartamentos. A composição das moradias na volumetria do bloco foi feita de forma que todas as salas e quartos recebessem a insolação desejada, ao contrário dos conjuntos habitacionais tradicionais que “espelham” os apartamentos na planta, valorizando a insolação de um apartamento sobre os outros ou não valorizando nenhum.

Planta Baixa do Pavimento Térreo - Bloco Residencial I

Planta Baixa do Segundo Pavimento - Bloco Residencial I

Planta Baixa do Terceiro Pavimento - Bloco Residencial I

Planta Baixa do Pavimento Térreo - Bloco Residencial II

Planta Baixa do Segundo Pavimento - Bloco Residencial II

Planta Baixa do Terceiro Pavimento - Bloco Residencial II

Unidades habitacionais:

                Após a definição das diretrizes e objetivos de projeto, passou-se a definir as unidades habitacionais de forma modular, com uma kitnet como módulo básico e fazendo as mudanças de tipologia somente pela adição de mais um dormitório (apartamento de dois quartos) ou mais um dormitório e um banheiro (apartamento de três quartos). A variação de tipologias ao longo do conjunto é uma forma de atender à usuários de diferentes características e diferentes necessidades.

Em todos os apartamentos buscou-se o alinhamento da sala e dos quartos para a melhor orientação por serem áreas nobres, deixando as áreas molhadas voltadas para o sul. Este layout interno permitiu a construção de apenas uma parede molhada por apartamento, facilitando a construção e evitando o gasto desnecessário com tubulações de água fria, quente e esgoto.

Esquema de modulação dos apartamentos.

Esquema da divisão dos apartamentos

Estrutura:

A escolha da utilização do steel frame como estrutura dos blocos foi devido à sua rapidez de construção e baixo custo quando utilizado em larga escala, como em construções de interesse social. O fato de ser uma estrutura pré-fabricada favorece também a limpeza da obra e a rapidez de execução. O steel frame, por permitir a construção de vedações mais finas, permite um aumento na área útil das construções e é aliado da construção sustentável, uma vez que exige a utilização de isolantes termoacústicos, que melhoram o conforto térmico interno e reduzem a necessidades de sistemas mecânicos de conforto, como o ar condicionado ou o aquecimento elétrico.

Os vídeos a seguir mostram processos de montagem de residências em steel frame e sua rapidez:

http://www.youtube.com/watch?v=DjYcUWAL_cY

http://www.youtube.com/watch?v=WEmOQNCCkn8

Imagens de detalhamento de montagem do Steel Frame:

 A modulação do steel frame foi feita com um espaçamento de 1,2m, sendo eventualmente dividido em dois espaçamentos de 0,6m. Estas medidas foram determinadas de acordo com a dimensão das vedações de placa cimentícia comercializadas. Uma das poucas desvantagens na utilização do steel frame para a construção é que ele não suporta grandes vãos e balanços. Nos casos em que isto ocorre nos blocos habitacionais – principalmente nos vãos de passagem entre os blocos – optou-se pela utilização da estrutura metálica tradicionais, com pilares e vigas, pois peças com menores seções suportam maiores vãos.

A fundação para o steel frame deve ser do tipo radier, para a melhor colocação dos guias de piso e montantes. Como a região é de aterro do mangue, que é de baixa resistência, a fundação escolhida também serve de maneira apropriada.

Vedações e aberturas:

Para vedação exterior e para as divisórias internas, optou-se pelo uso de placas cimentícias, as quais possuem medidas pré-definidas pelas empresas fabricantes. A espessura escolhida foi de 6mm, com comprimento de 1,2m e altura de 3m. Devido à modulação e intolerância do steelframe a grandes vãos, as placas cimentícias possuem necessidade de serem usadas no comprimento de 0,6m. A espessura da vedação é 102mm, com o montante de 90mm de largura e as placas cimentícias de 6mm. A utilização de placas cimentícias se dá pelo fato de ter custo reduzido em relação a placas de gesso acartonado e por serem mais efetivas em isolamento acústico que estas.

Placa cimentícia

As vedações que destoam do restante interiormente são os painéis do primeiro quarto da modulação. O quarto possui um painel móvel e outro removível, tornando possível ao usuário a mobilidade do ambiente, escolhendo o layout de preferência.

Nas vedações internas e externas, entre as duas placas cimentícias utilizadas para fazer a vedação tipo “sanduíche”, foi escolhida a lã de rocha como isolante termoacústico, também pela questão do baixo custo com relação à outros materiais isolantes. O acabamento externo das placas cimentícias é feito com pintura tradicional nas paredes internas e externas. Nas paredes molhadas é utilizado o revestimento cerâmico, que exige uma cola especial para aderência mas que, visualmente, é igual ao revestimento cerâmico utilizado em paredes de alvenaria convencional.

As aberturas foram trabalhadas nos blocos de forma a aproveitar a melhor insolação e permitir ventilação cruzada. As esquadrias utilizadas foram tradicionais de alumínio, por seu baixo custo, fácil instalação e por não gerar muito peso sobre a estrutura de steel frame. Os tipos de aberturas variam de acordo com seu posicionamento no bloco e, por consequência, sua orientação solar e de ventos. Foram utilizadas janelas de correr, guilhotina, basculante e pivotante, conforme o especificado na tabela de esquadrias e detalhamento.

Estratégias Bioclimáticas e Sustentabilidade:

                Com o objetivo de estabelecer uma habitação mais confortável e sustentável, buscou-se utilizar sistemas passivos e mecânicos que possuem uma eficiência mais palpável. Para fornecimento de uma parte da água para uso de higiene, implantou-se o sistema de captação de água pluvial através da implantação de telhados verdes. Os telhados verdes são uma ótima alternativa para filtrar a água das chuvas até o sistema de captação e reservatório pois se utilizam de vegetação natural. Além disso, garantem um melhor conforto térmico interno nas edificações e, em larga escala, podem reduzir a temperatura dos ambientes urbanos. São bons reguladores do oxigênio e da umidade do ar, além de possuirem uma ótima qualidade estética, especialmente neste projeto, pois compõem um eixo verde além da vegetação.

Camadas de instalação do Teto verde

A captação de águas pluviais feita através do teto verde fornece água para a área de serviço e para o banheiro, na parte da descarga. Para aquecimento da água potável utilizada no interior das edificações, foi adotado o sistema de captação de energia solar. Os painéis solares foram devidamente implantados nas coberturas dos edifícios, voltados para o norte verdadeiro e com a inclinação devida, igual à latitude de Florianópolis (aproximadamente 27°).

Como a área se localiza próxima ao mangue, foram implantados canais de drenagem ao longo da servidão. Este sistema ameniza o problema de alagamento que alguns pontos do local apresentam, sem a necessidade de elevar as edificações e, consequentemente, dificultar o acesso às edificações. Os canais de drenagem servem também para absorver a subida das marés que atingem o bairro através do mangue.

Outra maneira de prover maior conforto ao usuário foi a utilização das aberturas de maneira que estas proporcionassem ventilação cruzada. Em alguns apartamentos, isto ocorre de maneira bem eficiente, porém em outros, devido à conexão entre o bloco desconstruído, isto só ocorre nas situações em que as janelas dos corredores se encontram abertas. As aberturas também foram posicionadas para garantir o maior tempo de insolação possível ao longo do dia, diminuindo a necessidade da iluminação artificial.

Esquema da ventilação cruzada

As composteiras colocadas próximo às áreas de hortas comunitárias também podem ser incluídas nas estratégias de sustentabilidade. A composteira é um método de diminuir a produção de lixo orgânico nos lixões urbanas e reaproveitar os nutrientes para o cultivo de plantas.

cobertura_comercial

esquadrias janela

detalhe2

detalhe1

cortes_residencialI

cortes_comercial

corte_blocoresidII

pavimentoterreo_blococomercial

pavimentoterreo_blocoresidI

pavimentoterreo_blocoresidII

segundopavimento_blococomercial

segundopavimento_blocoresidI

segundopavimento_blocoresidII

terceiropavimento_blocoresidI

terceiropavimento_blocoresidII

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